
Mais ou menos com 9 anos eu comecei a me dar conta de que eu era diferente das outras meninas. Eu achava muito mais interessante elas, do que eles. Fui crescendo e reprimindo esse sentimento. Com 14 anos tive meu primeiro namoradinho. Aos 15 comecei a perceber que aquilo não me levaria a nada, mas que definitivamente não gostaria de ser lésbica. Tinha nojo daquele estereótipo que vinha na minha cabeça, de mulher-macho, calças largas, camiseta masculina e trejeitos de homem.
Com 15 me apaixonei por uma colega de colégio e quando vi que poderia ser mútua a situação resolvi correr o risco e tentar também. Fiquei mais feminina, me cuidava mais para não dar pinta. Meu primeiro beijo aconteceu na casa dela. Primeiro beijo, primeira transa, nossa! Foi muita coisa para uma noite só. Era muita curiosidade, não podíamos esperar muito. Era ali e agora ou nunca mais.
Aconteceu que ficamos mais umas vezes, mas a menina era hetero demais. Não gostava, queria experimentar e foi isso que aconteceu. Depois daquela experiência nada mais era tão divertido quanto o proibido.
Estudei em colégio católico a minha vida inteira, então eu tinha umas idéias meio conservadoras que faziam eu reprimir meus sentimentos. Quando levantei a bandeira uma vez, não quis mais soltar. Fui conhecendo pessoas novas e conversando, vendo que toda aquela idéia de estrelismo gay não era bem assim. Era possível ser gay e não dar muita bandeira. Não ser baixa e, nem mesmo, sem classe. Vi que tinham mil maneiras de demonstrar esse tipo de afeto.
Eu nunca fiz muita questão de esconder minha sexualidade depois que consegui me assumir para mim. A fase mais difícil disso tudo, inclusive, é essa. Entender a si e aceitar que é possível ser feliz sendo diferente, e muitas vezes, sendo ridicularizado pela sociedade.
Já fui descriminada em shopping, já ouvi desaforo na rua, mas prefiro pensar que um dia isso vai melhorar e dou meu melhor pa
ra que isso aconteça.
Entre amigos a coisa é muito mais light. Ainda tenho um pouco de medo de beijar na rua, ser reprimida e etc. Em casa me sinto dentro de casulo onde ninguém vê quem eu realmente sou. Por mais pistas que se dê, tem pais que realmente não querem enxergar a situação. Minha mãe soube quando eu tive minha primeira namorada séria. Ficou em choque, queria me levar em psiquiatras, mas eu resisti. Eu me entendia, sabia o que sentia e estava satisfeita assim. Não precisava ficar abrindo meu coração pra uma pessoa que nem conheço e que, muito provavelmente, nunca viveu nesse mundo que eu vivo e nem enxerga as coisas da maneira que eu enxergo.
Já tentei entrar no assunto com meu pai, mas ele é um cara na dele. Não pergunta, nem quer saber muito também. Só pede que sejamos (nós os filhos) honestos. OK. Sou honesta. Principalmente comigo mesma. Sim, sou gay. Gosto de mulheres. Não há erro nisso. Não vejo o porquê de sentir envergonha disso.
Sou a favor do amor. Se ele existe, está tudo ok.
Foto por Bruna Cabrera. Na foto: ilustração da Manifestação contra as manifestações de Dom Dadeus / Porto Alegre.