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quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Silêncio gritado

Caminhando pelo centro de Porto Alegre, é possível perceber pessoas de todos os tipos possíveis e impossíveis. Diga-se de passagem, me divirto sentada na Praça Quinze observando os passantes.

A esquerda de quem está olhando para o Mercado Público, podemos perceber um pastor e sua filha, munidos de microfone, amplificador, e claro, a famosa bíblia de baixo do braço. Ao redor do homem que fala em disparada, uma multidão presta atenção, como se o próprio Jesus estivesse a discursar em praça pública.

Nessa multidão constatamos a diversidade em pessoa. Engravatados, mulheres simples de cabelos longos e saias cumpridas, mulheres bem maquiadas usando terninhos executivos, senhores de idade com uma pasta cheia de papéis em baixo do braço, mas o que me chamou atenção em particular foram duas meninas de mãos dadas, de mais ou menos dezoito anos, que prestavam mais atenção do que qualquer outra pessoa da roda.

O discurso do pastor era claro, todos somos iguais e merecemos ser respeitados como pais, filhos, avós, amigos, mas só temos direito a essa igualdade se mantivermos uma conduta específica. As meninas, com os dedos entrelaçados, se olhavam a cada palavra do pastor com uma expressão de pavor nos olhos, pressentindo onde o discurso ia parar. O pastor continuou e, olhando fixamente para as meninas, larga a bomba, homossexualidade não encontra-se nessa lista de condutas que dão direito ao respeito. As meninas, agora com uma expressão indignada no rosto, simplesmente saem da roda discutindo entre elas as palavras do tal pastor.

Eu? Eu continuei no meu degrau da Praça Quinze, observando aquele ato, sem mover um músculo para mudar alguma coisa. O tal pastor estava em praça pública praticando a homofobia, com a bíblia de baixo do braço, acompanhado da filha e levando consigo uma multidão a concordar que apenas alguns têm o direito ao respeito. E eu parada olhando sem falar nada.

Me senti um nada, pois mesmo que eu tivesse a presença de espírito na hora, o que eu poderia ter feito sozinha? A religião realmente exclui a diversidade do vocabulário. Mas por que eu, como cidadã, não fiz nada? Acredito que eu não soubesse o que fazer. Perdi as esperanças quanto ao poder do cidadão naquele ato e a Praça Quinze também perdeu a graça depois daquilo.